gildázio

eu nasci aqui. a minha sanfona era a mesma de hoje. eu tocava antigamente de noite na beira do fogo lá em casa. animava uns baile também. vez em quando uma festa de aniversário um dia de reis. eu falo pra ele que mesmo pra ser bombeiro precisa de estudo, mas esse aí não adianta não gosta de estudar. eu quando era menino era doido com estudo e o meu pai ralhava que se o que eu comia no prato era por acaso o de estudar, se era algum estudo que enchia esse meu bucho. bem eu que nunca tive gordura pra contar e que com o que comia podia no máximo forrar magreza, rechear um pouco esse corpo que eu quase não era nem sou. eu não sou luiz gonzaga sambador de televisão caetano sei que lá nem nunca fui. tocava umas nota e o povo alegrava, vinha elogiar. mas era aquilo, minha irmã meu pai botou na escola e eu tive de roçar mais ele. era plantação de cacau que tinha pra fazer vingar crescer livrar dos bicho colher e eu não prestei praquilo nunca. minha irmã não estudava direito aí eu pegava os caderno dela e ia perguntando escondido pros outros o que era um dois e o que era á bê cê as letra os número. fui conversando com as palavra e aprendi que eu queria fazer um curso na área de refrigeração e condicionamento de ar. prestei passei mas não tinha documento de escola nenhuma pra mostrar na matrícula. e eu falei pra mulher lá que cuidava do curso que eu nunca tinha estudado mesmo não menti. se a gente anda na verdade, pode andar no meio fio, mas chega bem. aí a mulher deixou. fui lá pro rio de janeiro fazer o curso na rua nova iguaçu perto do maracanã das praia. um lugar que era beleza pra se relaxar. cê não foi no rio de janeiro? então vá. lá eu ganhava um dinheiro pra estudar e trabalhar. terminando o curso eu já tinha meus cliente. um dia um companheiro lá que era do ramo já tinha tempo não pôde fazer um serviço e me indicou. a mulher tinha cismado que o aparelho dela de ar condicionado não ligava mais. eu mexi nele todo e não tinha nada errado. mostrei pra ela um botão na parte de trás que ligava e pronto. aquilo era novidade naquele tempo e logo a mulher falou de mim pra mais gente e aí que o serviço andou bem. eu atendia cada casarão, não faltava mais trabalho graças a deus. o povo me tratava bem, servia café e nunca ouvi reclamação d’eu ser preto, baiano preguiçoso o que. e eu gostava de ver a vida daquele povo, queria a minha que nem. ar condicionado estante sofázão tv a cores empregada. imaginar é ruim nisso: a gente anda em terra que não tá não é nem vive. e quando vê, a vida é essa aqui. consegui juntar um dinheiro, alugar um apartamento bom lá no rio e acabei comprando de-a-meio uma terra com um companheiro meu daqui. companheiro naquele tempo né. metade era dele metade minha. foi passando o tempo e deu que o homem cismou de querer redividir a terra sozinho, fazer umas construção no lado que era meu, que o nosso negócio não tava justo e não sei o que. nisso ele tava aqui e eu no rio de janeiro ainda. era pra ser um canto uma terra pra quando eu ficasse velho, fizesse a vida como eu tava mesmo ali fazendo. mas aí tive que voltar só pra resolver essa estória: no fim fiquei até agora. já tem mais de trinta ano, nunca mais voltei no rio. acabou que eu passei a terra pra ele por micharia e casei. até hoje aqui. agora tem esse aí e mais dois neto que mora aqui. um deles até gosta de estudar e o outro gosta é da minha sanfona que era a mesma de hoje. esse aí precisa tomar jeito. nasceram todos aqui.

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