donizete

as aves voltam.
os sonhos ficam
nos quintais
das outras casas.
Galvão


desde o dia
em que donizete
não voltou
sem suspeita
esforço-me em
me convencer
de que não
éramos assim
grandes amigos
como os outros
velhos amigos
que ele tinha

muita vez
até consigo
afinal
n
ão conhecia
assim tão bem
a sua obra
sua pessoa

uma vez num
outro dia
haveria eu
de escrever
algum poema
sobre a ida
sem voltar
de donizete
mas não fiz

certamente
pelo fato
de que ali
não haveria
então partido
algum amigo
assim tão próximo
imenso
dessa vida e
foi sem ter o
meu poema
à donizete
a antologia

vez ou outra
me acontece
lendo uns versos
do poeta
uma saudade
que é de
como algum
menino que não
tivesse um pai
mas fizesse
donizete, esse poeta
de padrinho
e mal ganhasse
a bênção já
perdesse o homem

mas só pode
ser disfarce
esse teatro
da saudade
afinal nem
houve tempo
pra que eu
e donizete
nos sentássemos
mais do que
uma tarde inteira
estando os dois
de fato assim
bem à vontade
sem ter de
puxar assunto
no silêncio
incomodados

tanto tempo
o donizete
tendo ido
tão embora
pra não mais
e eu aqui
só nessa hora
a lhe deitar
essas palavras

coisa estranha
como disse
toda vez
de ler aquilo
que o homem
fez escrito
dá nas costas
essa saudade
sei que a gente
mal nem pouco
se conhece
ou conheceu
mas eu choro
fico besta
uma saudade
atordoado mesmo
sei lá o que

como se fosse
um sobrenatural
coisa de minas
a saudade
olha ela aí
já vem o choro
eu fico assim
você não fica?
eu sempre fico
mas não é bem isso
será esse
o sentimento?
pensando bem
será saudade?

arde aceso
não desmonta
a coluna
se enrijece
a cabeça
se aquieta
a vista
não procura
a pessoa
não se ausenta
não há de ser
não era bem
essa palavra
é outra coisa
quando eu leio
o donizete
é diferente
da saudade
não é ela
é o contrário

feito meu amigo
donizete, poeta e cometa
quero um dia
saber bem
deixar poemas para trás

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