contíguo

qual o real da poesia?
Alvim

12

o poema desperta ao meio – dia. perde a hora certa do café da manhã. lava a cara na pia, acende um baseado. fuma até o meio e guarda na camisa, no bolso, junto com o isqueiro. procura documentos na gaveta da cômoda. encontra debaixo da caixa de som – ninguém canta pra ninguém – do lado da televisão. come um pão na chapa na padaria do lado do prédio. vai tirar um xerox do rg, comprovante de residência: 3 vias.

18

por sob a retina de um cão o mundo se dá. o mesmo cão dos dias que acompanha em silêncio fiel, sem antídoto, uma doença terminal e não chega a reclamar ou dar falta de suas plumas indeléveis. acorda num saco preto de lixo e vai pra calçada. esbarra na caneca de ferro encostada. o sol já não mais se dispõe a atravessar o labirinto que dá no chão. de cima o céu vigia a cidade, o helicóptero, o terraço do prédio, um homem sozinho em cima. cigarro aceso. a rua, a calçada, a caneca, o cachorro. o outdoor em flagrante diante da retina.

13

três cópias desses dois. dá sessenta centavos. o cara do xerox, uniformizado, organiza os documentos no vidro e aperta o botão. os outros funcionários, uniformizados, organizam documentos no vidro e apertam botões. do lado de fora depois, o poema – o xerox de seus documentos – anda até o metrô. a porta-robô do banco se escancara sem qualquer proposta de recompensa enquanto ele passa na frente. do outro lado da rua uma floresta irrompe do chão e das paredes, dentro de um estacionamento: palavras. no chão, uma barata parada masca o chiclete pisado no chão. o poema debruça seus olhos por sobre essa situação e, como se cego, ignora-a.

19

a coluna rígida e o nariz alerta. o cão entra no supermercado. percorre os corredores, as cores que não capta, os aromas que reverberam. abre a geladeira e pega um açaí. sai logo dali. na plataforma, fareja em sépia, sentado no banco, o movimento retilíneo dos vagões, enfileirados, em direção alguma. ereção oposta. os que desembarcam dessas arcas  de nenhuma redenção tem odores que esse cão já sabe de cor e não coleciona. deixa o pote de plástico no banco – vazio. muda de assunto.

14

o poema para pra comprar batata no mc donald’s. tem daquele lanche novo ali? ainda não chegou na loja, senhor. o que de fato é intrínseco ao ser humano com relação a seus medos? leva só mais 30 segundos, senhor. (ela não pensa em consolidar uma carreira em hamburguerias). no metrô em movimento, as pessoas são estandartes de buscas infinitas pelo total. que é máximo limite. e que no processo de sua obtenção, traduz-se em medo. uma criança preta de vestido cor de rosa de princesa constrange alguns passageiros (e outros não) correndo de uma porta fechada a outra do metrô e cantando. duas notas musicais: próxima estação –

20

na vitrine da loja de eletrodomésticos o mundo se anuncia em tvs de plasma na promoção. a vida em emergência por entre frestas cobertas de poeira e alumínio. regras  de sobrevivência, manuais de obediência. na esquina, do ponto do cão, dá pra ver um outro cão na frente da vitrine. os dois se cumprimentam e fodem. pelas mesmas vias. os que passam, fleumáticos, em linha reta, são nocauteados pelo nylon da novela. param pra ver. um dos cães ejacula e uiva. plasma latente, superfície a queima-roupa.

15

o poema tem que fazer uma autenticação. registram-se em cartório todos os milagres, todas as maneiras e meios do medo, e de ser. e centenas de autenticações que nos permitem caminhar por sobre a terra. edifício dom pedro primeiro de alcântara, 171. sentado na sala de espera aguarda o guichê que chama pelo seu número – que já sabe de cor. eu vim fazer uma autenticação. xerox do rg e do comprovante de residência, por favor. de dentro da cabine o cara do cartório – a camisa social – preenche  de caracteres um formulário. dos lados da cabine, outras cabines. de dentro delas: funcionários, caracteres, formulários, xerox.

21

o cão lambe o chiclete do chão. escuta seu maxilar, o canino raspando, o jazz naquele sentido, o grito na medula. um mendigo sentado no chão se contorce laboriosamente – a mão aberta na ponta do braço esticado – e grita. cólera de nenhum vintém. sobra-lhe, das duas pernas, uma, e da outra a coxa amarrada no moletom. método prático: a mãe diz pra menina olhar pra frente. os olhos azuis são conduzidos ao atrofio de seus microfones e não amplificam o sentido da dor, não o reconhecem no espelho, numa sinfonia. os que não escutam, caminham. ao som da cidade, o cão lambe a mão do mendigo e vai embora.

16

o poema compra uma água e um chiclete na banca de jornal. bota na boca  e mastiga. canibal saliva. sentado no ponto de ônibus discerne por detrás do vidro (o de todos os olhos e egos) os caras do xerox. os uniformes guardados nas mochilas preconizam e praticam seu ofício silencioso e sem suspeitas. eles não vestem outras roupas, permanecem nus, de pé na calçada, a espera dos ônibus que os carregam, por labirintos  circulares, às suas casas também nuas e de hálito seco. o poema estende o braço, o dedo aponta. joga o chiclete no chão e sobe no ônibus.

22

uma pomba morta na beira do asfalto, de queda. metade atropelada, metade alimento. um tiro na asa. o cão se aproxima e lambe onde a pena permite a saída do sangue. onde o voo se estilhaça em mínimos imãs num chão de ferro e hábito. os caninos abrem caminho naquela carne de ar inválido. o gosto da fumaça se mistura ao dos nervos e da gengiva. a prática carnívora da língua se sacia. a boca de repente sede, a saliva – canibal – incita o vômito. o estômago agride em sinal e no que ele expele, o apetite – presto – insiste.

17

sozinho em meio a uma multidão que se amontoa dentro do aço em movimento – as rodas imprescindíveis, imóveis -, o poema plana por sobre os andaimes da cidade e suas promessas de sol. acende o baseado de novo, dentro do ônibus. os significados se sentam, em ritmo lento, em asas de papel e esquecimento. os esqueletos férreos habitam a paisagem que dorme. concedem passagem à algum céu – por sobre o qual plana o poema. passa por cima do prédio. empresta o isqueiro a um homem sozinho no terraço. ele acende o seu cigarro.

23

no chão debaixo do chão, o autofalante: evite arriscar a sua vida. o ferro do trilho responde raspando no trem de metrô. contiguidade anômala com som de solda, de chave que rasga a pele e encontra seu código à força. adentrando assim num cômodo e em seu pulso em partida, obtuso teatro de órgãos. nesse subchão, à beira do salto, a faixa amarela é feita de pólvora e enxofre. o homem, no encalço do risco, sobe as escadas rolantes. senta-se no centro da avenida, num banco de chumbo. o cemitério à sua frente é atropelado por uma legião de faróis em sua dança uníssona, dissonante. há um anjo erguido por cacos de ar e mármore infinito que escapa por entre uma fenda nos ruídos de pneu, por cima do muro. rio reflexo inimigo. mergulho no asfalto? mas as asas do homem permanecem úmidas e ele toma o elevador até o topo do edifício. do alto, o chão obedece o peso, pouso de ar. não há fósforos que acendam cigarros onde os helicópteros habitam e interceptam suas presas. nesse céu de rapina paira o risco – na altura dos olhos – a poesia flutua – nua no ar. o cigarro aceso no terraço ganha a breve atmosfera em vapor de cimento. o homem fuma diante do risco – alvo – e do medo. poderia ter edificado uma carreira sólida em hamburguerias. ter escrito poesia, obituários. mas restaria algo inaudito. devia ter sido atropelado logo. pra não correr o risco do suicídio. a umidez de suas asas de álcool alastra um cheiro de cera e sol. o cigarro no meio – a noite vibra – a química trama sua lógica de carvão. o patamar em chamas, encharcado de sombra e nenhum mar. degrau. de cima, o chão e o céu ávidos e ínvidos de ambos. a benção do fogo nas asas tem som de âmbar e rastejo. hasteiam-se as flâmulas-flamas do homem – um filho de deus – e o salto. estilhaços no céu acima do céu.

O

cão e poema se deitam na calçada. um papelão e um plástico como intermédio entre alma e chão. interlúdio que leva o cão à maçã. arreda pluma e asa. homem e método. máscara e septo. do alto da noite, enraízam-se palavras que crescem, descem, rebentam das rachaduras e cravam seus dentes na paisagem impassível. todos os sentidos do cão se escondem no patamar anterior do sonho. o poema range em seu sono concreto. irmanam-se cobertos de réstias e caules, palavras trançadas entre si. todos os silêncios permanecem intactos, oportunos, inquietantes – passam asas, e são vozes. à meia – noite alta – luz do poste fincado na calçada a rima à beira do risco antecede o pacto, o óbvio – o verso contíguo.

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donizete

as aves voltam.
os sonhos ficam
nos quintais
das outras casas.
Galvão


desde o dia
em que donizete
não voltou
sem suspeita
esforço-me em
me convencer
de que não
éramos assim
grandes amigos
como os outros
velhos amigos
que ele tinha

muita vez
até consigo
afinal
n
ão conhecia
assim tão bem
a sua obra
sua pessoa

uma vez num
outro dia
haveria eu
de escrever
algum poema
sobre a ida
sem voltar
de donizete
mas não fiz

certamente
pelo fato
de que ali
não haveria
então partido
algum amigo
assim tão próximo
imenso
dessa vida e
foi sem ter o
meu poema
à donizete
a antologia

vez ou outra
me acontece
lendo uns versos
do poeta
uma saudade
que é de
como algum
menino que não
tivesse um pai
mas fizesse
donizete, esse poeta
de padrinho
e mal ganhasse
a bênção já
perdesse o homem

mas só pode
ser disfarce
esse teatro
da saudade
afinal nem
houve tempo
pra que eu
e donizete
nos sentássemos
mais do que
uma tarde inteira
estando os dois
de fato assim
bem à vontade
sem ter de
puxar assunto
no silêncio
incomodados

tanto tempo
o donizete
tendo ido
tão embora
pra não mais
e eu aqui
só nessa hora
a lhe deitar
essas palavras

coisa estranha
como disse
toda vez
de ler aquilo
que o homem
fez escrito
dá nas costas
essa saudade
sei que a gente
mal nem pouco
se conhece
ou conheceu
mas eu choro
fico besta
uma saudade
atordoado mesmo
sei lá o que

como se fosse
um sobrenatural
coisa de minas
a saudade
olha ela aí
já vem o choro
eu fico assim
você não fica?
eu sempre fico
mas não é bem isso
será esse
o sentimento?
pensando bem
será saudade?

arde aceso
não desmonta
a coluna
se enrijece
a cabeça
se aquieta
a vista
não procura
a pessoa
não se ausenta
não há de ser
não era bem
essa palavra
é outra coisa
quando eu leio
o donizete
é diferente
da saudade
não é ela
é o contrário

feito meu amigo
donizete, poeta e cometa
quero um dia
saber bem
deixar poemas para trás

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