farol

É mérito deles
eu viver em três dimensões,
num espaço sem lírica e sem retórica
com um horizonte real porque móvel.
Wisława Szymborska

a personagem veio ao mundo num carro ao lado: olhos magros, cabelos rentes e pulseira larga – as mãos ao volante. a personagem entorna o olhar na direção do que há dentro do carro ao seu lado. nesse carro seguinte ao lado do carro dela a outra personagem surge: as mãos ao volante – pulseira magra, cabelos largos, olhos rentes (à procura de algo). esta outra personagem parece ocupar as atenções da primeira personagem com força e, desatenta, não repara nas vontades oculares daquela. a primeira não para, olha para a outra parada e só alterna ao olhar para o farol, quase transtornada com o tanto que aquilo lhe toca quase treme, como se brevemente apaixonada. inegavelmente tomada pela paixão instantânea a que estão sujeitos todos os seres do mundo que transitam entre outros seres do mundo. prestes a saltar do seu carro em direção ao carro ao lado, a primeira personagem é subitamente impedida pelo antagonista no banco do carona do seu próprio carro. de alguma maneira é onde ele sempre estivera, para nossa surpresa. era para ele que ela olhava estupefata e era para ela que ele, o antagonista, sempre estivera olhando fixamente. a cena transcorria dentro dos vidros fechados dos carros ao lado. no carro ao lado do carro ao lado a outra personagem encontrava a pulseira que faltava em seu conjunto, agora uma em cada pulso. o farol se esverdeia e eu, o narrador, no banco de carona desse carro aqui, observo estacionado.

calor

Os dias passam e o sentimento
Alvim

 

.não tem
.        tramela tem suas
.janelas abertas desde
.os veios da
.        madeira de que é
.     feito
.
.contra o
.recorte repleto de
.     ventos para onde
.                ele olha
.e se espalha
.podem se manter
.     fechadas vidraças
.        e asas mas
.   nunca frestas
.
.morre aberto

 

um elefante

 

.                    observa a humanidade
.sem pesar
.
.o que ele sabe
.               sobre as palavras
.         é o suficiente
.
.contra o              nada
.        e em favor
.    de todas as lutas
.o elefante
.                             arma
.suas silenciosas presas
.            e jamais
.                          ataca       ria
.
.     (pois é minúsculo
.                       e alado
.em seu pleno
.                     despejo
.               sobre a terra
.e após o paraíso)
.
.           atacaria talvez
.               se colocado
.em face do
.             infinito
.            que não deseja
.
.mas como
.             o faria
.           um aríete
.                        em ruínas
.                        ou
.um vendaval
.                 na  memória
.                 ou
.                                      uma tempestade
.                              anterior
.                                         ao tempo
.                                   acontecendo sempre
.                                                          em cada júpiter,
.                                       momento
.                                                        e em todo
.                                                                  átomo além
.
.                                   sua carne
.                                   por ser
.                                   antes calo
.                                   do que sal
.                                  é seu escudo
.
.                                                                    seu passo suas idéias
.                                                                                                são

.
.e nem ao mais tranquilo mar
.haveria a necessidade
.de ser dita uma
.certeza sequer
.pela língua
.escura
.de um elefante

sem título

 

 

despedaçou-se ao começar. foi assim, como se capotando, degringolando-se, a maior das alegrias. quedando num pouso mal calculado até se esfarelar no pó da terra. as razões da ceifa certeira e consciente de um caule ainda vulnerável ao mais leve sopro, quem poderia relatar?
.                           o que seria um alvo
.passível de denúncia
.                                         nesse caso?
.                que culpa
.                                          ou culpado?
.a morte há tempos transferiu sua função aos vivos
.                                     por observá-los
.                                                       em exercício
.pleno da habilidade de recolher almas (mesmo que para nenhum corpo seguinte,
.um descarte) após tantas eras de aperfeiçoamento diário da prática, mas, como que pelo costumaz e automático
.                                    gosto pelo serviço,
.ela eventualmente vem buscar
.                      um de seus protegidos
.para depositá-lo no futuro, abrindo um espaço
.                                    vazio
.                                              no agora.
.                                                          um espaço
.que começa como um tiro.
.                         que abre uma ferida
.            que atamanha-se
.                    ao modo de crateras
.                                  num outro país
.                                                        que é a pele.
.              instaura-se esse velório sem cadáver,
.essa ladainha de ninguém.
.                            e, ao atingir a fronteira do osso
.                                  (e é necessário assistir
.                                          e sentir
.                                           atentamente o atamanhamento desse furo),
.                                                                                   a dor recua e desaparece:
recobre a ausência de carne com a carne de que é feita a terra e então preenche todo
esse espaço ora repleto de subtrações como uma faca faria num corte, pelo avesso, e encharca-se da chuva, do sol e das aleatoriedades precisas e necessárias do vento (insetos, folhas, microrganismos, passos, estrelas). torna-se barro

e depois chão
e então, nunca suficientemente                                                                 .
preparado,                                              .
o que era despedaço recomeça                                .
sua eterna tarefa                                                               .
de gestar o que há adiante.

carnaval

nós dois deitados
no meio do incêncio

Fróes e França

hoje a manhã acordou sem ninguém no mundo. despertou sozinha, no automático. as estações de metrô oferecendo seus trens inúteis que levam pessoa alguma a todo e qualquer lugar nenhum. as multidões estão vazias e o dia de hoje é como se fosse passado. o horóscopo na tv prevê mudanças fortes na vida amorosa para os que não sabem o que é amor e/ou, dentre os que já tomaram conhecimento dele, para os desiludidos, divorciados, frígidos, sacerdotes castos e mortos dos viúvos. além disso, prenuncia momentos de dificuldade no trabalho para desempregados, mendigos, vadios, sufis em transe giratório e monges em estado de nirvana (mas nenhum deles hoje existe mais, por isso – e só por isso – de nada serve a arquitetura randômica dos futuros). lá fora os prédios continuam por fazer, suas vigas permanecem atentas ao próximo bloco a ser sustentado e é numa dessas construções em ruínas que despertei hoje, zureta, já com a cabeça no mundo e a mil. deixei meu saco plástico e o canivete no pátio do térreo do prédio vazio que habito e fui embora. farejei esse cheiro de nada aceso, o golpe insurreto desses rios mortos. as avenidas, as florestas, os bairros, os hectares, não havia ninguém. agora relato esse fato aqui (estamos aqui?), mas isso não se trata de um pedido de ajuda, um contato imediato de outras paragens além-terra. isso não seria necessário, estamos aqui e não há ninguém no mundo. só vim conversar mesmo, desafogar desse mundo vazio que sou eu. você anda cheio? engano seu. pra melhorar, primeiro é bom evitar o tédio. sendo assim, melhor parar por aqui porque nada acontece no mundo: aqui é a festa do que não existe. se bem que não, a gente faz tempo que não fala da vida, desde que a gente morreu. vai dizer que cê não sabia? encarnar num corpo novo, estar vivo, é o único degrau dessa escada que desce à morte. então qual a diferença se quando nos sentamos para descansar nesse degrau, devidamente vivos, é no barro desse chão funesto que apoiamos as solas dos pés? estamos encarnados, eu e você, e essa é nossa salvação. esse é o nosso carnaval. por enquanto, então, vamos esconder nossos rostos na cara, pintá-los de sol e tinta cor-de-pele. vamos juntos, de almas dadas, enterrar as serpentinas, confetes, as fantasias, o samba enredo e a gente mesmo – tudo em movimento – na terra úmida da avenida que agora perpassamos vazia, entre aplausos de civilizações futuras que nos flagrarão fossilizados a festejar a solidão do homem e o sono dos séculos que recai sobre tudo por ele criado. ainda bem que encontrei você aqui. e que você me encontrou também, no meio do nada de nós. pra onde a gente vai agora? por onde começamos o mundo?

concílio

.– mal sabem das coisas
.               que julgam
.esses juizes
.                   de tudo,
.
.(– essas vozes nos jornais e salas)
.
.jamais sentaram-se nelas
.ou colheram de suas fontes
.                     o sulco composto
. de dogma e dúvida
.que lhes percorre o dentro
.            ininterrupto
.irrigando o real
.       que sempre houvera
.                                     nelas,
.                     nas coisas.
.
.– de que argumentos
.se valeriam
.          esses senhores
.          numa situação dessas
.                  e já que defesa
.puderam fazer
.                    até hoje?
.                               que ataque?
.
.– alguém se lembra
.                                    de fato
.               se existe algum
.                                       relato que registre
. (– algo mesmo comprovado)
.                 o momento exato
.  em que esses homens
.                               enxergaram o primeiro
.                                          raio,
.                      o primeiro lapso do ato
.que os desfez
.                    animais
.                            como agora mesmo são?
.
.– e que deus
.             lhes revelou
.                 esse segredo,
.                                             essa invenção?
.o meu?

certeza

..por
.       que
.no fim
.            das contas
.
.enquanto não tá
.         sendo
.é que não
.        é
.          pra ser
.
.  a gente
.                nem
.vai saber
.   quanto
.          de tempo
.                                 que há
.         pra vir a ser
.
.                   nem de que
.         modo ser                 á
.
.e quando é
.             é certo
.                  e tátil
.         que está
.                         sendo,
.                         sempre fora
.           pra ter sido
.
.                               e é claro
.            que sabíamos
.                           desde
.             o princípio