desmonumento

para Manoel de Barros

.foi quando a velhice
.  emoldurou as minhas
.                         páginas com gordura
.        dos dedos amarelamente
.                   que lá era um monumento
.     de nuvens inéditas,
.         ciscos e postes sem cercas
.
.                                      eu era voo e tremi
.                                                     ao percorrer as
.                                      janelas daquelas
.                                                                       estátuas de ar
.
.pois também
.     nelas além
.                         das trovoadas
.         estarem estão
.   a única terra
.                          onde se pisa adiante
.
.   a úmida e silenciosa
.confiança que há
.                          nalgumas cascas e plantas
.
. e as mais execráveis
.importâncias do mundo
.        de braços dados
.                              mesmo com as
.                              mais gloriosas abominações
.                          por exemplo um monumento
.
.nada se transforma
.(há muito mais restos
.             nos ponteiros
.         do que horas)
.a não ser
.              que, somados, os mais
.dispensáveis resíduos do pó
.               sejam alçados como uma infantaria
.   de balões familiares
.
.                    e cavalguem
.                em passeio pelo céu
.               que inventam ao seu
.          modo de fábrica vazia
.        a nos estender
.                             asas em desuso

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postura

levei quarenta
e sete anos
para erguer esta
coluna que agora
vês enrijecida

quarenta e sete
anos a nado no
breu dos ossos

uma idade inteira
de luta contra
a gravidade curva
deste sustentáculo
às minhas costas

e se não lhe dou
essa vida
toda em trabalho
edificado
e riscos poupados
nunca se
manteria rijo
em linha reta
este relâmpago
cervical
que agora
eleva-se altivo
diante de ti

a prenunciar o estrondo
de sua queda

dinossauro

daí ela disse
grrawl

e eu saí
correndo com a mão
na cabeça gritando
meu deus tem
um dinossauro na minha
casa e agora?

é um dinossauro
enorme feroz peligroso
faminto que adora devorar
pessoas especialmente
as pessoas assim como
eu que morrem
de medo de
dinossauros enormes
ferozes peligrosos famintos

pensei preciso
encontrar um esconderijo
ali na frente aquela caixa
enorme do fogão
novo vai servir
aqui nenhum
dinossauro vai me achar
ainda bem
ufa

daí o dinossauro tava vindo
dava pra ouvir os passos
dele e uma risada que se não
fosse a assustadora
risada de um dinossauro enorme
feroz peligroso faminto seria
a de alguma menina pequena
a risada mais bonita
maior do mundo assim
gigante

daí o dinossauro queria
me enganar e falou
assim dando risada
calma pai
é de inventado só
sou eu ó viu?

parto (ou teatro de órgãos)

prólogo

foram três socos por dentro do corpo. a cada soco um intervalo desassossegado e desigual ao outro. um em cada lugar do corpo. a intermitência entre os socos é que fez padecer o paciente, a ferida à espera de cicatriz (ou do corte ser mais fundo) e não a força de seu rasgo. como infiltrações de água almejando a transcendência de paredes, nenhum dos intra-ataques causou quaisquer hematomas na epiderme do paciente. vieram de dentro e de lá o exterminaram, como o corpo a um natimorto. para isso, organizaram-se como se segue os três socos:

ato um

o primeiro no pau, o menos esperado, faliu no instante do golpe a pressuposta inocência desse órgão que até então se camuflava como quem nunca esteve e agora expunha-se involuntariamente. golpeado, não mais pôde dissimular seu inchaço, sua violência totêmica como uma invasão num país na roupa no modo no mundo do outro. sem domínios, anunciando o futuro do corpo como um todo, empalideceu-se e desprendeu-se, célula a célula, da pele da carne dos nervos da base do homem.

ato dois

o segundo veio de baixo, direto e certeiro no estômago, este órgão hospedeiro do orgulho do desejo da coragem. esses também três sentimentos (como os socos) se esfacelaram e foram aos poucos expulsos pelo reto, quase imperceptivelmente, em meio aos restos do órgão dispostos num líquido ralo como se periódico.

ato três

o terceiro, já aguardado, levou mais tempo do que seus antecessores e quando veio (e como todos veio de dentro para dentro) partiu pelo centro a coluna do homem – como a uma sucessão de reis depostos por facas. este homem estatelou-se sobre suas costelas inférteis, estéreis, despedaçando-as ao pó, e ficou ali caído, incapaz como uma mulher um rebento.

epílogo

luz baixa. o corpo do homem é retirado enquanto um coro de mulheres nuas enfileiradas anuncia do palco, numa ode melodiosa e entusiasmada, a chegada do público pagante. entram mulheres e homens vestindo máscaras das mais variadas formas, rudes ou elegantes, trágicas e cômicas. sentam-se ao som da música e, sem demora, oferecem lances monetários, propriedades, bens e obras de arte em troca das atrizes que, aos montes descem do palco em direção aos seus compradores (algumas poucas parecem hesitar a princípio, mas, embaladas pelo estereofônico canto que compõem, abdicam de seu mínimo desejo). à descida da derradeira atriz todas as vozes cessam e finaliza-se o ritual. simultaneamente explodem dos braços de todos os presentes aplausos imensos e pelas portas de entrada que dão para os assentos da plateia principal irrompe um rio às costas dos pagantes. todas as saídas de emergência são falsas, dão em muros, e todos, atrizes e espectadores, enxarcam-se e então inundam-se e enfim afogam-se e flutuam maravilhosamente como se numa cena de cinema um filme que se vê na tevê.

lugar

diante da correnteza
desses dias
Donizete Galvão

.ao chegar
.            aqui já não
.            sabia ao
.certo o que
.passara até
.                    então
.
.as razões pelas
.quais as coisas
.tornaram-se o que
.agora
.são são
.             sempre vagas
.
.e então
.a vida é mesmo
.assim
.           não se
.              sabe nunca:
.
.as mãos por
.debaixo dos
.    panos como
.segredos à luz
.
.depurações e
.                 depurações
.
.o que ainda há
.              de ser é
.                   sempre
.          ainda só
.um nunca
.
.
.e não
.              se poderia
.deixar suceder
.          falta de
.nunca nenhum
.
.porque ao chegar
.aqui
.       só se pode
.                          andar
.                          adiante
.
.afinal de rio
.    é que
.somos feitos
.
.e não há
.          nada já
.           feito no
.mundo que
.    não tenha
.um dia sido
.agora

farol

É mérito deles
eu viver em três dimensões,
num espaço sem lírica e sem retórica
com um horizonte real porque móvel.
Wisława Szymborska

a personagem veio ao mundo num carro ao lado: olhos magros, cabelos rentes e pulseira larga – as mãos ao volante. a personagem entorna o olhar na direção do que há dentro do carro ao seu lado. nesse carro seguinte ao lado do carro dela a outra personagem surge: as mãos ao volante – pulseira magra, cabelos largos, olhos rentes (à procura de algo). esta outra personagem parece ocupar as atenções da primeira personagem com força e, desatenta, não repara nas vontades oculares daquela. a primeira não para, olha para a outra parada e só alterna ao olhar para o farol, quase transtornada com o tanto que aquilo lhe toca quase treme, como se brevemente apaixonada. inegavelmente tomada pela paixão instantânea a que estão sujeitos todos os seres do mundo que transitam entre outros seres do mundo. prestes a saltar do seu carro em direção ao carro ao lado, a primeira personagem é subitamente impedida pelo antagonista no banco do carona do seu próprio carro. de alguma maneira é onde ele sempre estivera, para nossa surpresa. era para ele que ela olhava estupefata e era para ela que ele, o antagonista, sempre estivera olhando fixamente. a cena transcorria dentro dos vidros fechados dos carros ao lado. no carro ao lado do carro ao lado a outra personagem encontrava a pulseira que faltava em seu conjunto, agora uma em cada pulso. o farol se esverdeia e eu, o narrador, no banco de carona desse carro aqui, observo estacionado.