cadelas calasares sungas negras

os calasares atacavam as cadelas e muitas delas morriam lá por causa deles. aquele era um lugar onde habitavam essencialmente cadelas e alguns cachorros. calasares eram mosquitos prateados nas costas e de pernas grandes demais para seus corpos, mas que ninguém ali nunca via. deu-se que surgiram naquele mesmo tempo naquele lugar também uns homens que usavam como vestimenta exclusivamente sungas negras. esses homens não eram de lá. então gradualmente, como por exemplo pode ter sido o dilúvio quando caiu – não uma chuva intensa e devastadora de uma vez, mas uma sequência de chuvas pequenas, agradáveis a terra, que depois cessaram todo dia cada vez menos até tornarem-se imensas e inundarem a terra e tudo num mar em que homens não seriam capazes de nadar pois teriam que nadar pela vida inteira e isso não podem fazer – então, gradualmente assim como num dilúvio as cadelas passaram a atacar os homens que trajavam sempre, curiosamente, sungas negras. atacaram-nos até que não restasse um deles lá. isso em consequência das mortes aquelas mortes de tantas das suas companheiras e companheiros.

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os sungas negras haviam chegado primeiro em número pequeno lá e, amigáveis que eram, tornaram-se em pouco tempo amigos mesmo próximos daquelas cadelas de lá. alguns até se radicaram, fazendo crescer sua população amigável. e que estranho foi que conforme mais homens chegavam naquele lugar onde as cadelas moravam menos delas sobreviviam aos ataques invisíveis dos calasares. a propósito, antes da chegada dos homens com suas sungas pretas nunca se tinha sequer ouvido falar desses predadores: os imperceptíveis calasares. mas as cadelas sabiam que os calasares eram monstros que nunca existiram e que, mesmo se existissem, não morreriam de mosquitos assim cadelas como aquelas que elas eram.

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coceira

A única resposta é que a linguagem só poderia nascer e adquirir eficácia numa situação em que todos, ou uma grande maioria, estivessem doentes ou muito enfraquecidos, tornando-se então uma moeda de troca, uma comunhão na doença, e aí sim, se entre eles houvesse alguém sadio que fizesse ouvidos moucos àqueles gritos, alguém desatento à estranha ladainha, então os doentes, em grande maioria, teriam reunido forças para matá-lo ou expulsá-lo.
Nuno Ramos

aparar a barba, e não fazê-la de todo. não permitir ao queixo pouco, ao maxilar, que mostrem seus contornos em troca de nenhuma recompensa. os pelos não escondem, moldam com técnica apurada a carne à imagem que a mente dimensiona, como se substituísse uma doença (sua dor), uma enzima, o azul, uma cachoeira, pelos vocábulos que os designam. há anos não vejo meu rosto – o tom de meus poros enquanto covas de cravos secretos, bichos em sua condição de cadáver, enterrados sob cabelos curtos e crespos, gramado – mas não é necessário vê-lo, não será possível que caiba em qualquer percepção ótica, profundamente humana. a pele como cortina, cobrindo infinitas outras cortinas, – o pigmento despreparado para a menor força de sol – se aterroriza com a iminência de sua neutralização quando exposta aos holofotes da normalidade impune a sua volta, revelando sua fábrica de erros ainda pouco lapidados, mal esculpidos, incompletos para serem anunciados. por essa razão, se o amálgama de fios que irrompe de seu tecido (casca, plumas, endométrio) sofre o peso do corte de lâminas pequenas (enormes), ao reflexo da queda de seus íntimos cabelos em fronte, como se ativassem um mecanismo primário de defesa – ao modo de peixes venenosos, dorme-dormes, celulares sem bateria – essa mesma pele, esse rosto e mais a face do que está antes e dentro, num tributo sincero, em cada exato ponto onde um dia nasceram esses seus mínimos membros agora mutilados, clamam pelo atrito das unhas (semelhantes vivos), coçam.

pêsame.

ao Pedrinho

num bairro parecido com o da infância, seu jonas do pastel deixa pingar óleo quente nas costas da mão.
– boatarde, seu jonas. senhor ficou sabendo?
– quem foi que morreu?
na esquina a ambulância que não está mais lá. o portão trancado.
– dona-suzana, de chinelo virado. mata. sabe quem é?
– sei, morou na casa aqui da frente um tempo. ela e o marido.
o olhar dele parado no portão, distraído e atento. tampa a queimadura com papel toalha – a ausência que a ferida exala. o marido não ficava em casa de dia. e ela molhava as plantas enquanto seu jonas, atento, esquentava o óleo.

(2) – (in)cômodo.

onde a morte de guarda-chuva
comanda
Poças de solidão, entre urubus.
Drummond.

há um cômodo por sobre uma península. situada sobre o chão que esse cômodo e essa península compartilham, uma cadeira viabiliza o descanso das varizes – a saia em volta – de uma mulher. essa mulher é velha e sobre ela não há mais nada. o narrador pendura – em meio à infinitude do risco, acumulando num mesmo coágulo o descarte de toda outra possibilidade – um quadro em posição perpendicular a essa mulher. naturalmente os músculos de seu pescoço se movimentam e ela passa a observar o quadro. o céu-vermelho e toda sua inaptidão a sol. a luz codificada em nanquim e madeira, sua nenhuma cor. dentro disso: atentar-se à fervura do café, haver a constatação do já ocaso à espreita e da necessidade urgente de se esquivar da lógica, irremediável componente da atmosfera, da clausura. de susto, no caminho curto e seguro de um tapete, o passo rebenta. pela janela a bicicleta perde o embalo que adquirira na ladeira da rua anterior. o menino passa a pedalar. a fileira de formigas rente a parede encontra continuidade por meio de suas olfativas antenas em comunhão onde já não mais há o monumento de carne – um braço – por sobre a madeira do braço da cadeira-caminho. um corte em forma de corpo (e humano) irrompe a dança frenética dos componentes em comunhão – ciscos, lascas de cometa, cinzas – da incisiva poeira que flutua no cômodo. o quadro às costas da mulher permanece evidente em sua esquiva de luz, encoberto pela sombra translúcida dessa mulher velha. a sua unha – a dela – tilinta no ferro. a maçaneta se envolve da mão, que exerce devida força para mínimo movimento, rumo a toda possibilidade de não caber em cômodo o ser. trancada. à porta, o espasmo e a solidez da prisão arquitetam-se, como barro, em compreensão de experiência e código reconhecidos. o ser que se ausenta de voo no chão do cômodo. o café.

poeira.

Ele me deixou na portaria. Eu subi e fiquei vendo o carro dele parado lá embaixo. Ficou lá, com o carro ligado, uma meia hora. Pouco depois de sair me mandou um torpedo: me liga se precisar. Foi então que, chorando, eu invejei todos os sorrisos que se abriam naquele mesmo instante e fui ver televisão pra ver se o sono chegava.

Meu celular tocou quando o som do filme que passava já se confundia com os pensamentos desconexos da inconsciência do meu sono. Não era ele. Era um amigo de infância, o Flávio. Ele tava numa situação meio difícil em casa e precisava conversar. Comemos bolacha água e sal e tomamos dois vinhos daqueles de cinco reais enquanto ele contava as suas angústias. Nos beijamos como se fosse uma conseqüência impossível de se evitar, como se já tivéssemos combinado pelo telefone. E desse beijo a única conseqüência plausível era transar da maneira incrível que transamos.

Fazia seis anos e quatro meses que eu não tinha alguém que não fosse o Heitor e da maneira que eu o tive. Antes disso não houve muitos outros, pelo menos foram poucos os relevantes. Agora eu tinha o Flávio, quase diariamente e em diversas posições. No início ainda foram necessários como pretexto pra nos vermos algumas angústias de um ou de outro, até virar cotidiano.

Pessoas e objetos diferentes passaram a freqüentar os mesmos travesseiros e lençóis os quais nos acostumamos a dividir, dividiram eles com a gente. Os segredos que esses lençóis e travesseiros guardavam passaram a ser compartilhados por hotéis, motéis, casas de amigos, banheiros públicos, praças e outros lugares.

Cheguei a esquecer Heitor nos momentos em que estive com Flávio, ele nem sequer passava pela minha cabeça enquanto eu me distraía com orgasmos. Mas desenvolvi um costume incontrolável de, logo que Flávio dormia, não deixar de investigar o Orkut do Heitor. Flávio me dava prazer e Heitor, saudade.

A saudade foi ganhando a atenção que até então eu dedicava quase que totalmente ao prazer que Flávio me dava. Eu relutei em ligar pra ele durante alguns dias, semanas. O dia em que tive que fingir um orgasmo pela segunda vez com Flávio, não me contive e liguei.

– Viu, como cê tá?
-Tô indo e você?
– Cê pode vim aqui pra gente conversar?

Eu vi o carro dele parando lá embaixo, vi ele descer, tocar o interfone. Supus que ele cumprimentou o porteiro, devem ter discutido futebol como sempre, porque demorou um pouco pra subir. O porteiro deve ter evitado perguntar o porquê de ele estar ausente nos últimos tempos e contar da freqüente presença do Flávio em casa. A campainha tocou.

Eu tinha me arrumado muito, inconscientemente. Me perfumei, botei uma roupa que ele gostava. Queria mostrar que tava bem, mas acho que ele entendeu que deveria me chamar pra sair. Fomos num restaurante, comemos boa comida e tomamos um bom vinho. O silêncio pairou sobre nós sendo interrompido poucas vezes por algum comentário sobre a comida, o trabalho, algum amigo em comum.

Fomos pra casa dele como se aquilo já estivesse combinado desde o início. Antes de me deixar terminar de dizer que sentia saudade ele me beijou, me puxou pro teu corpo, me abraçou e me matou a saudade. De manhã escrevi ‘tchau’ na poeira da cômoda vazia.