farol

É mérito deles
eu viver em três dimensões,
num espaço sem lírica e sem retórica
com um horizonte real porque móvel.
Wisława Szymborska

a personagem veio ao mundo num carro ao lado: olhos magros, cabelos rentes e pulseira larga – as mãos ao volante. a personagem entorna o olhar na direção do que há dentro do carro ao seu lado. nesse carro seguinte ao lado do carro dela a outra personagem surge: as mãos ao volante – pulseira magra, cabelos largos, olhos rentes (à procura de algo). esta outra personagem parece ocupar as atenções da primeira personagem com força e, desatenta, não repara nas vontades oculares daquela. a primeira não para, olha para a outra parada e só alterna ao olhar para o farol, quase transtornada com o tanto que aquilo lhe toca quase treme, como se brevemente apaixonada. inegavelmente tomada pela paixão instantânea a que estão sujeitos todos os seres do mundo que transitam entre outros seres do mundo. prestes a saltar do seu carro em direção ao carro ao lado, a primeira personagem é subitamente impedida pelo antagonista no banco do carona do seu próprio carro. de alguma maneira é onde ele sempre estivera, para nossa surpresa. era para ele que ela olhava estupefata e era para ela que ele, o antagonista, sempre estivera olhando fixamente. a cena transcorria dentro dos vidros fechados dos carros ao lado. no carro ao lado do carro ao lado a outra personagem encontrava a pulseira que faltava em seu conjunto, agora uma em cada pulso. o farol se esverdeia e eu, o narrador, no banco de carona desse carro aqui, observo estacionado.