parto (ou teatro de órgãos)

prólogo

foram três socos por dentro do corpo. a cada soco um intervalo desassossegado e desigual ao outro. um em cada lugar do corpo. a intermitência entre os socos é que fez padecer o paciente, a ferida à espera de cicatriz (ou do corte ser mais fundo) e não a força de seu rasgo. como infiltrações de água almejando a transcendência de paredes, nenhum dos intra-ataques causou quaisquer hematomas na epiderme do paciente. vieram de dentro e de lá o exterminaram, como o corpo a um natimorto. para isso, organizaram-se como se segue os três socos:

ato um

o primeiro no pau, o menos esperado, faliu no instante do golpe a pressuposta inocência desse órgão que até então se camuflava como quem nunca esteve e agora expunha-se involuntariamente. golpeado, não mais pôde dissimular seu inchaço, sua violência totêmica como uma invasão num país na roupa no modo no mundo do outro. sem domínios, anunciando o futuro do corpo como um todo, empalideceu-se e desprendeu-se, célula a célula, da pele da carne dos nervos da base do homem.

ato dois

o segundo veio de baixo, direto e certeiro no estômago, este órgão hospedeiro do orgulho do desejo da coragem. esses também três sentimentos (como os socos) se esfacelaram e foram aos poucos expulsos pelo reto, quase imperceptivelmente, em meio aos restos do órgão dispostos num líquido ralo como se periódico.

ato três

o terceiro, já aguardado, levou mais tempo do que seus antecessores e quando veio (e como todos veio de dentro para dentro) partiu pelo centro a coluna do homem – como a uma sucessão de reis depostos por facas. este homem estatelou-se sobre suas costelas inférteis, estéreis, despedaçando-as ao pó, e ficou ali caído, incapaz como uma mulher um rebento.

epílogo

luz baixa. o corpo do homem é retirado enquanto um coro de mulheres nuas enfileiradas anuncia do palco, numa ode melodiosa e entusiasmada, a chegada do público pagante. entram mulheres e homens vestindo máscaras das mais variadas formas, rudes ou elegantes, trágicas e cômicas. sentam-se ao som da música e, sem demora, oferecem lances monetários, propriedades, bens e obras de arte em troca das atrizes que, aos montes descem do palco em direção aos seus compradores (algumas poucas parecem hesitar a princípio, mas, embaladas pelo estereofônico canto que compõem, abdicam de seu mínimo desejo). à descida da derradeira atriz todas as vozes cessam e finaliza-se o ritual. simultaneamente explodem dos braços de todos os presentes aplausos imensos e pelas portas de entrada que dão para os assentos da plateia principal irrompe um rio às costas dos pagantes. todas as saídas de emergência são falsas, dão em muros, e todos, atrizes e espectadores, enxarcam-se e então inundam-se e enfim afogam-se e flutuam maravilhosamente como se numa cena de cinema um filme que se vê na tevê.

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